Monday, November 07, 2005

País da poesia

PAÍS DA POESIA




POÉTICA

Mais ensombreado e triste,
o impossível, o tenebroso,
o âmbito inflexível dos poemas:

rasgar os peitos das siriemas
roubar os cantos
rubrar encantos
petrificar as relvas
nelas sepultar poemas

E abandonar em meio a muitos
cadáveres
o poeta
roxo de prazer mórbido
engendrar em tantos ventres pútridos
os ovos da ausência de deus,

e subitamente ver
um verme ridículo nascer
o poeta então o devora
na verdade o poeta o adora
este filho bastardo de deus,
o âmbito inflexível dos poemas:

rasgar os peitos das siriemas
roubar os cantos
rubrar encantos
petrificar as relvas
nelas sepultar poemas.




RESPOSTA A AUGUSTO DOS ANJOS

Vês, Augusto,
não floresceram os ciprestes
desde o enterro da tua última quimera.

E aquela mão que afagava,
Augusto,
nem à pedra me recomendou.

Tenho fumado muitos cigarros
desde então...

O beijo, Augusto, é na verdade
a véspera de tudo.

O escarro, amigo, talvez seja o princípio
que sempre nos permeou.

Assim, Augusto, talvez seja justo
que os ciprestes não dêem flores
e que amor seja só mais uma palavra.


FIREHNEIT

Repito palavras, repito discursos.
Tudo foi de tal forma dito
que tornou impraticável a boa sabedoria da mimese.
E talvez um dia venham a atear fogo
à universidade chamada Biblioteca.

Imagina Balzac e Faulkner,
Virgílio e Dante, ardendo
numa fogueira primitiva
a restaurar a sacralidade do fogo.

No comments: